É uma das situações mais comuns no consultório: uma pessoa chega querendo iniciar um processo de terapia de casal, mas o parceiro não quer, não acredita que seja necessário ou simplesmente recusa.
A pergunta que costuma vir junto é: "Dá pra fazer alguma coisa mesmo assim?"
A resposta é mais complexa do que um simples sim ou não.
O que a resistência de um parceiro costuma revelar
Quando apenas um dos dois quer ir à terapia, isso já diz algo sobre a dinâmica do casal. Não significa, necessariamente, que o parceiro que recusa está errado ou que não se importa com a relação. Pode revelar:
- Desconforto com a ideia de expor aspectos privados da relação para um terceiro.
- Uma leitura diferente sobre o que está acontecendo — o que para um é um problema, para o outro pode não ser percebido da mesma forma.
- Receio de que a terapia funcione como um espaço de julgamento ou culpabilização.
- Uma postura defensiva diante do pedido do parceiro, que pode estar sendo vivida como acusação.
Nenhum desses pontos é necessariamente intransponível. Mas todos merecem ser compreendidos antes de qualquer tentativa de convencer. A terapia de casal exige uma participação mínima dos dois, não uma presença obtida por pressão.
Forçar a ida à terapia raramente funciona
É importante dizer com clareza: quando uma pessoa é levada à terapia de casal contra a sua vontade real — ou com muito relutância —, o processo tende a não funcionar.
O trabalho clínico com casais exige participação ativa e disposição de ambos para observar seus próprios padrões, não apenas os do outro.
Um parceiro que vai "para provar que o problema é do outro" ou "para fazer um favor" raramente consegue se engajar de forma genuína. E isso compromete o processo.
O que é possível fazer quando o parceiro não quer
Ainda assim, há caminhos possíveis:
Iniciar um processo individual. Mesmo que a terapia de casal não esteja disponível no momento, o atendimento individual pode ser valioso.
Trabalhar a própria posição na relação, compreender os próprios padrões e desenvolver recursos emocionais pode afetar a dinâmica do casal — ainda que só um dos dois esteja em processo.
Quando alguém começa a responder de forma diferente aos padrões antigos, o sistema inteiro é afetado. Se você, por exemplo, para de tentar resolver o conflito do parceiro e começa a nomear seus próprios limites, o ciclo relacional pode mudar — mesmo que ele não esteja em terapia.
Revisitar a forma como o convite foi feito. Às vezes a resistência do parceiro tem a ver com como a proposta chegou até ele.
Se a ideia da terapia foi apresentada como "você precisa mudar" ou "você tem um problema", a resistência é compreensível. Uma conversa diferente, que apresente a terapia como um espaço para os dois — e não como uma correção de um —, pode abrir possibilidades distintas.
Considerar uma sessão de avaliação como ponto de partida. Pessoas que resistem a "fazer terapia de casal" como processo contínuo frequentemente aceitam ir a uma única sessão — sem compromisso de continuidade, apenas para compreender melhor o que está acontecendo.
Uma sessão de avaliação clínica (Diagnóstico Conjugal) pode ser um primeiro passo menos ameaçador. Não é "terapia", é avaliação. Tem começo e fim claros. E oferece ao parceiro relutante a chance de entender o que está realmente em jogo sem pressão.
Quando só um quer, e o outro definitivamente não quer
Há casos em que a recusa é mais do que resistência — é uma posição firme.
Nesses casos, o trabalho clínico pode ajudar a pessoa que quer ir a terapia a lidar com essa situação: o que fazer com a diferença de percepção, o que isso diz sobre o momento da relação, e quais são as escolhas disponíveis a partir daí.
Esse não é um lugar fácil de estar. Mas é um lugar que merece ser trabalhado com cuidado, não apenas tolerado.
Limites éticos quando apenas um quer buscar ajuda
O objetivo do cuidado clínico não é ensinar alguém a convencer, pressionar ou manipular o parceiro. Quando só uma pessoa quer ajuda, o trabalho precisa respeitar a autonomia de ambos e observar se há condições reais para um atendimento conjunto.
Em alguns casos, faz sentido começar por uma conversa individual de orientação. Em outros, pode ser possível propor uma primeira avaliação conjugal com começo e fim definidos. Os limites desse processo também estão descritos na página de ética profissional.